A Humana Desconstrução do Heróico

Comecemos pelo começo. O ser humano é uma criatura comunicadora e, dentro desta habilidade básica, desenvolveu meios para que a mensagem a ser transmitida chegasse ao receptor. Daí a emissão de sons, as pinturas rupestres, a escrita… Os modos de se comunicar e expressar idéias evoluiram e estão evoluindo de modo assombroso. Nestas considerações, não se pode enxergar histórias em quadrinhos como um meio menor. A arte se manifesta das mais diversas formas, através das mais variadas ferramentas e não é à toa que a chamada nona arte foi apenas o meio inicial encontrado para expressar algo digno das grandes obras literárias. Foi só o ponto de partida para algo que nasceu relevante e revolucionário. Foi onde surgiu Watchmen e, em contrapartida, Watchmen atingiu ramos que transpassaram e evoluíram o formato até então convencional.

O enredo se passa em um tipo de Estados Unidos “alternativa” da década de 80, durante a Guerra Fria, onde a presença de heróis mascarados e super-heróis (personificados, no caso, na figura do Dr. Manhattan) influenciaram  a cultura, a economia, a tecnologia e o desenvolvimento político. Graças à presença do Dr. Manhattan, o único ser verdadeiramente com poderes,  o país venceu a guerra do Vietnã. Juntando este fato a  um escândalo do Watergate que nunca aconteceu por conta do assassinato misterioso de dois repórteres do Washington Post, o Presidente Nixon está já há um longo período na presidência. No início da história, os heróis estão em grande parte aposentados por conta de uma lei que exigia que todos os “aventureiros fantasiados” se registrassem no governo. O ponto de partida da trama se dá com o assassinato de Edward Blake, o Comediante, que o vigilante renegado Rorschach decide investigar com a suspeita de uma conspiração maior, que se revela além até mesmo do que ele esperaria.

“Só uma história de heróis” não é o melhor modo de definir a obra idealizada por Alan Moore. Watchmen desconstrói os mitos dos heróis e super-heróis e os apresenta em sua visão peculiar de como heróico e icônico pode ser apenas humano e como o divino ou o lógico pode transcender nossos conceitos do certo e errado. A história poderia ser, por exemplo, sobre heróis lendários e o panteão olímpico que o resultado seria o mesmo. Os próprios épicos contos gregos já mostravam que há o falho e o contraditório mesmo no divino e que seres excepcionais e ações humanas podem mudar o curso da história.  São parábolas de seu tempo, que exploram nada menos que a humanidade em si. Watchmen é exatamente isso, um conto de proporções épicas sobre um tempo e uma mitologia específica. No caso, uma bem mais atual, que substitui os olimpianos, e que para muitos causa fascinação, identificação e mesmo vazão para um mundo que se dá a liberdade de ser uma alegoria ao nosso próprio.

O que é ser herói? Épocas diferentes, ideologias diferentes e ocasiões diferentes definem que é digno do título de heroísmo. Até mesmo para aqueles que possuem valores dentro do moralmente dúbio ou das quais as ações são questionáveis. Se o soldado em guerra se destaca no combate e abate um grande número daqueles que, como ele, estão ali para matar em serviço às ordens de seus países, ele é um herói que cumpriu seu dever. Jesus Cristo é muito mais que um herói para muitos, assim como Hitler é o herói para alguns. Watchmen explora e desconstrói estes conceitos. Seria o herói o homem comum e falho que busca fazer a diferença em seu mundo? Seria aquele obcecado pela sua visão do certo e inquestionável e que vai até o fim para defendê-la ou aquele que acredita que um bem maior às vezes vem do que poderia ser moralmente controverso? Talvez o deus que se omite por estar distante demais dos mortais, se desvencilhando de convenções humanas puramente culturais?

O Comediante é um exemplo claro de que o que se julga por heroísmo ou bandidagem é uma simples questão de ponto de vista ou ocasião. Ele não tem vergonha de ter tido ações tão corruptas quanto às de um policial que veste a farda, mas que nem por isso está fazendo a lei ser cumprida. É um herói do ponto de vista político, pois defendeu, à sua conveniência, interesses específicos. Combateu vilanias do mesmo modo que pode fazer um policial que recebe propina. Ele representa o contraditório e, mais uma vez o comparando com um oficial, é o exemplo mais claro de que usar um uniforme não faz da pessoa necessariamente correta ou cumpridora do que seria a essência básica da sua função. Por que no caso dos denominados “heróis” seria diferente? O Comediante representa o “american way” em sua faceta mais rasteira, ardilosa e controversa.

Exemplos, referências e metáforas quando se fala do homem comum sob o espectro peculiar de Watchmen. Desde o Coruja, que parece ter perdido algo e que só reencontra sua confiança por detrás de seu manto, até Ozymandias, que em seu impulso de realmente salvar a humanidade dela mesma, faz jus à sua alcunha de homem mais inteligente do mundo usando contra o mundo um artifício da qual ele próprio se vê a mercê todos os dias sob as mais diversas formas. Há também o obcecado Rorschach, alguém que vê a vida de modo tão monocromático quanto sua máscara e que luta até o fim pelo purismo que julga correto, em detrimento do que considera podre. Há modo mais interessante de se vislumbrar o que é o conceito heroísmo? De perto, o que é isto, afinal? O termo por si só, como já citado, é controverso e passível de interpretações dos tipos mais variados. Mas a história vai além, fala sobre desprendimento, frustração, esperança, facetas morais tão diversas quanto à própria natureza de todos nós e, por fim, mas não menos importante, sobre sacrifício.

A graphic novel Watchmen usufruiu de tudo o que o veículo “história em quadrinhos” tinha ao oferecer em termos visuais e de narrativa, até o desenrolar do roteiro e concessões que o meio permite. A HQ de piratas “Contos do Cargueiro Negro”, lida por um garoto sentado ao lado de uma banca de jornais, nada mais é do que uma metáfora à própria história principal em si e ao seus protaganistas, mascarados ou não, assim  conversando com os eventos que correm simultaneamente. Watchmen toma emprestados ainda elementos literários que, concebidos por um feliz viés do acaso, complementam o universo, fazendo com que as referências bibliográficas ficcionais, escritas pelo próprio Alan Moore, tornem o mundo de Watchmen mais completo e tridimensional. Considerando tudo isto, é claro que em uma versão para cinema nem tudo poderia ser transposto de forma literal. A mudança de formato impede isto. A questão é: poderia ser adaptado? Ou melhor, levando em consideração o capital necessário, a necessidade de lucro e a mentalidade hollywoodiana, seria possível? A primeira resposta seria “não” ou “improvável”. Mas a idéia ser tornou realidade e, sim, foi possível.


“QUIS CUSTODIET IPSOS CUSTODES”

Obras realmente importantes estão fadadas e revisitação e releituras de tempos e tempos. Watchmen não foi uma excessão e a esperança de alguns que a hora dele não chegasse era ilusória. Mesmo assim, o fato de ter sido convertido em uma superprodução de cinema sem se render à deturpação do conteúdo original foi uma conquista significativa e arriscada mas, artísticamente falando,  acertada. Não se pode negar que a película é corajosa por simplesmente não estar dentro do que é convencional. A maior virtude de Watchmen – O Filme (este “O Filme” sempre desnecessário nos títulos…) é também o seu maior defeito: Condensar uma história dividida em 12 capítulos e recheada de detalhes importantes em um filme de menos de três horas, o que por si só é tarefa das mais difíceis. Somando isso ao fato de ser diferente do que é comum para fitas de “heróis”, temos algo no mínimo controverso.

O público dos chamados blockbusters está acostumado com os estereótipos e fórmulas mais básicas nas tramas adaptadas de quadrinhos: Há um vilão que é vilão e um herói que é herói. O herói derrota o vilão de forma mirabolante e o bem vence o mal. Básico. Mas isso nunca foi Watchmen. O que pôde ser feito para esta versão de cinema foi reforçar certos traços e amenizar outros – Ozymandias, o “homem mais inteligente do mundo”, é mais vilão, mais merecedor de antipatia. Este foi o personagem que mais sofreu com a versão cinematográfica pelo simples fato que deveria haver alguém que tivesse que ser derrotado. O pouco tempo o privou até de uma motivação mais aprofundada. E ainda assim, mesmo com traços mais fortes de um Ozymandias mais suspeito e Coruja mais “Batman”, o desfecho foi atípico para o que o público “leigo” esperaria e respeitou a essência da obra original.

O diretor Zack Snyder quis com o filme fazer referências ao cinema e a cultura geral do mesmo que a graphic novel faz às próprias HQs e também à cultura. Estas referências se refletem nos figurinos dos personagens, cenas específicas e mesmo na trilha sonora. Até uma referência à adaptação anterior feita por Snyder, 300, está lá. É possível também ouvir o Grito Wilhelm, um elemento clássico e indispensável para qualquer produção que se proponha a fazer referências ao cinema em geral. As músicas que fazem parte do filme têm um significado particular para cada momento em que aparecem, seja ele mais emblemático ou mais explícilto em suas letras e conteúdo. É de estranhar ou até achar cômico que Hallelujah, de Leonard Cohen, esteja em uma cena mais “picante” do filme. Pelo menos para quem não tem idéia do que a música verdadeiramente expressa. O fato é que pensar que a produção teve desleixo ou descuido em certos detalhes  é injusto.

Dizer que o filme é perfeito é uma grande bobagem, só comparada a dizer que ele falha como adaptação. O tão polêmico desfecho precisou ser alterado em relação à HQ apenas pela pura e simples troca de mídias e não altera o resultado final. Dos pesares, pode se dizer que o elenco teve peças fortes, assim como atores que não casaram bem com o seu papel. Prova disso é a diferença entre Jackie Earle Haley e sua elogiada atuação como Rorschach e a pouco expressiva Malin Åkerman no papel da frustrada heroína Espectral. As cenas de ação tiveram acréscimos desnecessários e por vezes exagerados, com o intuito falho de tornar o filme mais palatável a públicos que só buscavam apenas isso mesmo. Nada que no fim desqualifique o trabalho desprendido para realização do longa. O que mais dizer? A mesma temática adulta, falhas de caráter e anseios ainda estão lá. Tanto que para alguns ainda é difícil não encontrar no filme o super-herói incorruptível e altruísta. Dentro disto tudo, acusar Watchmen – O Filme de ser uma obra sem humanidade é um equívoco, pois a essência é primariamente oposta.☺

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