Moto-maloqueiros

Eles são uma subespécie que provavelmente você vê todo dia, exceto se não sai de casa e não tem nenhum contato direto com um exemplar. Fazem parte de uma espécie maior, que é o terror de quem transita por esta cidade de meu Deus dentro de uma máquina de quatro rodas. Eles também se locomovem em máquinas com rodas. No caso, duas. Quando chega a noite, eles se reúnem com seus brinquedinhos acompanhados das piriguetes também rodadas e desocupadas, com o único intuito de fazer barulho, exibir a extensão motorizada de sua masculinidade frustrada e locomoverem-se do nada para o lugar nenhum. Eu os apelido carinhosamente de “moto-maloqueiros”.

Meu bairro é um reduto peculiar desta expressão de raro valor da cultura humana. Depois de um dia qualquer de trabalho e estudo em que eu encontro minha namorada, deixo esta em casa e me dirijo para a minha, querendo usufruir de um merecido sono. A rua está cheia de gente. Não importa se é segunda-feira, sexta ou domingo: a rua está cheia. Raro que não. Barulho de motor, funk executado por um maravilhoso celular, comentários ecandalosos dos meninos, risos histéricos das meninas.

Não estou sendo preconceituoso, estou sendo analítico. O grupo de pessoas barulhentas que cito é formado por muleques e menininhas sem cabresto que em sua vida diurna trabalham exclusivamente para bancar a prestação da motoca, a gasolina desperdiçada inutilmente, bebidas e baladas maneiras, cheias de azaração, sapinhos e inconsequência. Eles só querem se divertir, óbvio. Eles só pensam nas cocotas. O futuro se resume a um emprego que exige pouca formação e garante o capital para sua rotina promissora.

Cresci no meu bairro, conheço as pessoas de lá. Sei que a maioria saiu da escola sem saber escrever uma frase sequer de forma coerente. Sei que para muitos o futuro é uma farra e se a “mina” atual embuchar, é só fazer um puxadinho sem reboco na casa dos pais e juntar os trapos que está tudo certo. Aí vem as brigas. Os dois não conseguem olhar um na cara do outro e vivem se separando e voltando. Quem sofre é o rebento, que cresce em um lugar desajustado, com maus exemplos e pouca orientação.

O que eu observo é: Enquanto eu caminho pela rua, passa um ser descolado em sua motoca com um outro cara também descolado, mas que não teve a graça divina de possuir uma moto só sua, na garupa. O que é estranho, considerando que no local em que eles se reúnem há meninas e seria supostamente preferível para o motoqueiro que uma delas estivesse agarrando-o em cima da moto em vez de outro mancebo. De qualquer modo, os dois dão a volta no quarteirão… uma, duas, três vezes. Que batuta, que legal. Acho que eles não dormem. Ou pelo menos, não acordam cedo, visto que o horário em que eu vejo este pessoal em plena atividade é entre 23h40 e 0h00.

Muitos não usam a moto para trabalhar. Gostam mesmo é de reunir os amigos e ficar empinando o veículo em alguma rua vazia. Isso quando não fazem racha. Claro, ele foi feito para isso, não foi? “Olha só o que eu sei fazer!” Incrível, esse cara manja muito. O Vital, pelo menos, comprou uma porque achava que andar de ônibus era o fim. A vida, a juventude é para ser aproveitadada, claro. Podemos e devemos nos divertir, mas a partir do momento em que uma pessoa cresce, as responsabilidades aumentam junto com a autonomia.

Um espécime destes estava todo feliz, alegre e saltitante porque conseguiu comprar sua motocicleta. Mas, por ser um menino pobre e que iria se matar para pagar seu novo brinquedo, resolveu não fazer o seguro deste. Com uma semana de uso, ele saiu para pagar de gatinho motorizado por aí e sua máquina-de-pegar-mulher foi roubada. Moral: não fez seguro, agora vai ter que pagar uma coisa que não tem mais. Não adianta querer ter um objeto para obter “status” se não tem nem dinheiro para bancá-lo. É burrice.

Crescer e se julgar dono do nariz deveria ser acompanhado obrigatóriamente do bom senso, que faz uma pessoa enxergar que um meio de transporte serve, como o nome já diz, para transportar a pessoa de um lugar ao outro e que, não importa quem seja, é patético sair pagando de bonzão por conta de um bem material. Ainda mais quando nem se tem dinheiro para sustentar qualquer coisa além dele. Há muitas prestações ainda para pagar, eu seria mais cuidadoso.

Sobre Bruno Chagas

Jornalista, entusiasta de novas tecnologias, viciado em internet, conteudista polivalente, chato de plantão e defensor da verdade e justiça.

Publicado em 16/06/2008, em Artigos, Fauna Paulistana. Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Carlos Neimar Kuhn

    Texto simplesmente fantástico e apoiado.

  2. Maria Medeiros

    Concordo plenamente. São patéticos.

  3. sou motoqueiro a 10 anos e nao faço essas barbaridades, uso a moto somente para trabalhar. muita gente ganha a vida em cima de uma moto nao se pode generalizar.

  4. Bruno Chagas

    Mas eu não generalizei, falei de um tipo de comportamento específico. Eu dirijo carro, mas nem por isso deixo de notar comportamentos semelhantes em muita gente que também dirige. Gente cabeça oca tem em todo lugar, só falei de algumas delas.

  5. Bruno Chagas

    Comentários postados no Brasil Wiki!:

    13/09/2008 – j.s araujo – Santos
    Gostei muito da observação deste cidadão, está corretíssimo. As pessoas estão indo muito pela aparência. O que importa é o que as pessoas vêem e não o que realmente eu sou. Infelizmente!!!!!!

    13/09/2008 – felipe – santa maria -RS
    Moro no Rio Grande do Sul, mais precisamente no centro do Estado. Estudo numa escola pública que é considerada a maior do município e lá, todos os dias na hora da entrada pra aula, tem uns “”maloka”" de moto ou projeto de moto que vão só pra aparecer e pegar as mina. É lógico que elas preferem cara que tem moto! A moto nem deles é, mas estão lá, com uma roupa de marca toda rasgada, que compraram num brecho 3 por 10. Mas não estão nem aí. Ah, eu tenho minha moto.

    http://brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=7001


    Quando eu vi a página neste site, estava com 307 acesso, posição nº 5 no ranking das mais lidas. Nossa…

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